Retirada dos Estados Unidos e pressões financeiras contrastam com iniciativas de cooperação científica em áreas estratégicas para o desenvolvimento sustentável.
Criada sobre os escombros da Segunda Guerra Mundial para promover a paz por meio da educação, da ciência e da cultura, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) completa 80 anos nesta quarta-feira (4/11) em meio a um paradoxo: a necessidade cada vez mais premente de cooperação internacional para enfrentar desafios globais, como a crise climática e as desigualdades no acesso ao conhecimento confronta-se com crescentes dificuldades políticas e financeiras, experimentadas pelas instituições destinadas a promovê-la. A Constituição da UNESCO foi assinada em 16 de novembro de 1945 e entrou em vigor em 4 de novembro de 1946.
A UNESCO celebra seu 80º aniversário a menos de dois meses da saída dos Estados Unidos, prevista para 31 de dezembro. A decisão ocorre em um cenário de tensões geopolíticas e pressões sobre o multilateralismo, que impõem novos desafios políticos e financeiros à organização. Para enfrentá-los, a agência vem diversificando suas fontes de financiamento e promovendo reformas institucionais.
As divergências entre Washington e a UNESCO não começaram com Trump. Em 1984, durante o governo Ronald Reagan, os Estados Unidos já haviam deixado a organização, à qual retornariam em 2003. Em 2011, durante o governo Barack Obama, suspenderam seus repasses financeiros após a admissão da Palestina como Estado-membro. Trump anunciou uma nova retirada em outubro de 2017, revertida por seu sucessor, Joe Biden, em 2023. Em julho de 2025, o atual presidente norte-americano voltou a anunciar a saída do país, alegando, entre outros motivos, um suposto viés anti-Israel e o apoio da UNESCO a causas sociais e culturais consideradas por seu governo divisivas e politicamente corretas.
Em julho de 2025, a então diretora-geral da UNESCO, Audrey Azoulay, emitiu comunicado que assegurava que “graças aos esforços feitos pela Organização desde 2018, a tendência decrescente na contribuição financeira dos EUA foi compensada” reduzindo a participação americana a 8% do orçamento total da Organização, com aumentos constantes de seu orçamento geral.
Mas outros tantos desafios aguardam a agência, e superam em muito aqueles relativos à diplomacia e aos orçamentos. Como os países serão capazes de continuar a compartilhar conhecimentos, desenvolver pesquisas e construir respostas conjuntas para problemas que ultrapassam suas fronteiras, como as mudanças climáticas, o desafio da sustentabilidade e o fim dos combustíveis fósseis? São questões diretamente relacionadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030, especialmente ao fortalecimento da cooperação internacional para enfrentar problemas que nenhum país consegue resolver isoladamente. Trata-se, portanto, de uma discussão que interessa diretamente à Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030.
A revista trimestral O Correio da UNESCO (The UNESCO Courier, em inglês), publicação oficial da organização , em sua edição comemorativa de 80 anos da instituição, reúne reportagens que traduzem o alcance dos feitos desta agência com ideário generoso, criada para fomentar a paz em corações e mentes “por meio da compreensão mútua e da educação, da ciência, da cultura e da informação”. “A UNESCO é, acima de tudo, uma casa para a paz e o diálogo”, resume seu diretor geral desde novembro do ano passado, o egiptólogo egípcio Khaled El-Enany, em entrevista exclusiva na referida publicação .
Apesar dos abalos orçamentários, políticos e geopolíticos, o diretor-geral Khaled El-Enany está convencido de que a UNESCO continuará desempenhando um papel relevante nos próximos anos. “Os desafios do amanhã não podem ser confinados a silos. A inteligência artificial, a mudança climática, a desigualdade e a construção da paz exigem respostas que simultaneamente se baseiam na educação, nas ciências naturais, humanas e sociais, na cultura, na comunicação e na informação”. Para El-Enany, essa capacidade de agregar conhecimento, valores e perspectivas “fará da UNESCO um ator cada vez mais essencial nos próximos anos”.
Uma janela aberta para o mundo
E aqui vai um testemunho pessoal. Em minha juventude, por volta de meus 16 anos, lia a revista O Correio da UNESCO. Sua versão em português fora publicada pela Editora da Fundação Getulio Vargas entre 1972 e 1980.
Encimando a capa, abaixo de seu cabeçalho, o slogan: “uma janela aberta para o mundo”. E era disso que realmente se tratava. O caráter humanitário, a ênfase na dignidade humana e em nossos tesouros universais proporcionados pela cultura enchiam os olhos deste hoje ‘jovem há mais tempo’. Tudo isso combinado às revelações da brutalidade da ditadura que nos chegavam por outros meios, naqueles tempos de nascente abertura democrática. Atribuo parte de minha formação humanista ao papel desempenhado por O Correio da UNESCO em minha juventude. Era um outro mundo.
Criada em 1948, a revista continua circulando, agora com periodicidade trimestral e apoio financeiro da China, em uma parceria voltada à sustentabilidade da publicação. Suas páginas seguem dedicadas a temas que refletem as transformações do mundo contemporâneo, da desinformação e da crescente desconfiança na ciência aos desafios trazidos pela inteligência artificial.
Esgrime suas páginas contra os moinhos de vento da “crescente desconfiança em relação à ciência, dos perigos da desinformação, da intensificação do discurso de ódio e da ascensão de máquinas inteligentes”. Sua profissão de fé resiste, em editorial de Agnès Bardon, editora-chefe, na edição comemorativa: “devemos reinvestir no potencial humano da educação, da ciência e da cultura, que constituem o próprio DNA da UNESCO.
A cooperação científica na prática
A cooperação científica tem sido o forte da UNESCO ao longo destes anos. A UNESCO apoiou um projeto conjunto de monitoramento e gestão do Aquífero Guarani, uma das maiores reservas de água doce do planeta, envolvendo quatro países: Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. Foi em 2010 que os países assinaram um acordo histórico, que entraria em vigor dez anos depois, “reconhecendo seu interesse compartilhado em conservar e explorar esse recurso comum de maneira sustentável”.
Embora o projeto tenha sido concluído em 2026, os países nele envolvidos já preparam uma nova proposta de cooperação para assegurar a continuidade dos mecanismos institucionais de gestão compartilhada do Aquífero Guarani. Esta tem implicações que ultrapassam a conservação ambiental, alcançando a segurança hídrica, as condições sanitárias e a saúde das populações que dependem desse recurso.
A iniciativa dialoga diretamente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, especialmente o ODS 6, que prevê a cooperação transfronteiriça na gestão dos recursos hídricos, e o ODS 17, dedicado ao fortalecimento das parcerias internacionais.
A cooperação apoiada pela UNESCO resultou na criação de uma rede-piloto de monitoramento das águas subterrâneas, com 35 poços ativos e a perfuração de outros seis, além da adoção de protocolos comuns de análise pelos quatro países.
O próximo desafio será transformar o conhecimento científico acumulado ao longo destes anos em metas concretas para a gestão da água e do solo. A experiência, desenvolvida com o apoio da UNESCO, poderá servir de referência para a proteção de outros aquíferos transfronteiriços.
O caso do Aquífero Guarani sugere que, apesar das tensões geopolíticas e das dificuldades enfrentadas pelas instituições multilaterais, a cooperação internacional continua capaz de produzir resultados concretos. O desafio para a UNESCO, ao completar oito décadas, talvez seja justamente preservar e ampliar essa capacidade em um mundo no qual os problemas compartilhados se multiplicam, enquanto os consensos necessários para enfrentá-los parecem cada vez mais difíceis de alcançar.


